INTEGRAÇÃO ELÉTRICA
Paraguai e Brasil estudam solução para conectar redes elétricas de 50 e 60 Hz
Diferença de frequência impede ligação direta entre os sistemas; autoridades analisam alternativas técnicas para ampliar intercâmbio de energia.
Publicado em 17/09/2026 às 00:03
Paraguai e Brasil avançaram nas discussões para ampliar a integração dos sistemas elétricos dos dois países. O principal desafio está em uma diferença técnica que existe há décadas: a rede paraguaia trabalha em 50 hertz (Hz), enquanto o sistema brasileiro opera em 60 Hz.
O assunto foi discutido na terça-feira (15), em Assunção, durante reunião liderada pelo ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano. Também participaram o ministro da Indústria e Comércio, Marco Riquelme, o presidente da Administração Nacional de Eletricidade (ANDE), Miguel Báez, e equipes técnicas.
O objetivo é encontrar alternativas técnicas que permitam ampliar a interconexão energética entre Paraguai e Brasil, mesmo com os dois sistemas operando em frequências diferentes. A reunião também tratou do fortalecimento da cooperação no fornecimento de eletricidade entre os países.
Por que 50 e 60 Hz dificultam a conexão?
A frequência é uma característica da corrente alternada utilizada pelas redes elétricas. Como Paraguai e Brasil adotam padrões diferentes, os sistemas não podem simplesmente ser conectados diretamente sem equipamentos e estruturas capazes de compatibilizar a energia.
Essa situação já faz parte da operação da própria Itaipu Binacional.
A hidrelétrica possui 20 unidades geradoras de 700 megawatts cada, totalizando 14 mil MW de potência instalada. Dez máquinas foram projetadas para gerar em 50 Hz, frequência utilizada pelo Paraguai, e outras dez trabalham em 60 Hz, padrão brasileiro.
Quando a energia produzida pelas máquinas de 50 Hz de Itaipu precisa seguir para o sistema brasileiro, ela não pode ser inserida diretamente na rede de 60 Hz.
Para resolver essa incompatibilidade, existe um sistema de transmissão em corrente contínua operado por Furnas. A eletricidade de 50 Hz é convertida de corrente alternada para corrente contínua em Foz do Iguaçu e transportada por aproximadamente 810 quilômetros até Ibiúna, em São Paulo. Lá, passa por uma nova conversão e entra no sistema brasileiro em corrente alternada de 60 Hz.
Esse sistema começou a operar em 1984 e utiliza duas linhas de transmissão de ±600 kV entre Foz do Iguaçu e Ibiúna.
Itaipu já funciona com os dois padrões
A estrutura da usina ajuda a explicar por que Itaipu está diretamente relacionada ao debate sobre uma maior integração energética.
Do lado brasileiro, a energia de 60 Hz produzida pela hidrelétrica segue por sistemas de transmissão conectados à Subestação de Foz do Iguaçu. Já a produção de 50 Hz abastece o Paraguai e também pode ser direcionada ao Brasil por meio do sistema de conversão em corrente contínua.
No Paraguai, a energia de Itaipu chega ao sistema da ANDE pela Subestação Margem Direita, instalada na área da própria hidrelétrica. A partir dela, linhas de 500 kV e 220 kV distribuem a eletricidade para diferentes regiões paraguaias.
A dimensão dessa dependência também aparece nos dados mais recentes. Entre janeiro e agosto de 2026, Itaipu forneceu 19.276 GWh de energia ao Paraguai por meio da ANDE. Somente em agosto, 3.428 GWh foram produzidos pelo setor de 50 Hz da usina, dos quais 2.401 GWh foram destinados à estatal paraguaia.
Discussão ainda está na fase técnica
Apesar do avanço das conversas, a reunião desta terça-feira não resultou no anúncio de uma nova linha de transmissão, obra, investimento ou prazo para a interconexão.
O comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores do Paraguai informa que estão sendo analisadas alternativas técnicas para permitir o avanço da integração e ampliar a cooperação no fornecimento de eletricidade. O governo paraguaio ainda não detalhou qual tecnologia seria adotada, onde seria instalada uma eventual nova conexão nem o investimento necessário.
Um dia antes da reunião, na segunda-feira (14), o presidente da ANDE recebeu o embaixador brasileiro no Paraguai, José Antonio Marcondes de Carvalho. Segundo a estatal, o encontro também abordou o fortalecimento do setor elétrico e a integração energética regional.
As novas discussões ocorrem ainda em um momento em que a ANDE trabalha no Plano Mestre de Geração 2024-2043, estratégia de longo prazo apresentada recentemente em Foz do Iguaçu e que inclui segurança energética, expansão do sistema e integração regional.
Para a região da fronteira, o tema tem relação direta com Foz do Iguaçu porque parte fundamental da infraestrutura que atualmente permite compatibilizar a energia de Itaipu com o sistema brasileiro está instalada justamente na região.
A eventual ampliação da interconexão poderá criar novas possibilidades para o intercâmbio de eletricidade entre os dois países, mas os efeitos, capacidade e custos dependerão da solução técnica que vier a ser definida.
Fonte: Portal da Cidade
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