CRIME ORGANIZADO
Do roubo no Brasil ao tráfico no Paraguai, o caminho dos veículos furtados na fronteira
Investigações revelam rede que clona, desmonta e revende automóveis, além de abastecer grupos ligados ao narcotráfico.
Publicado em
17/06/2026 às 09:19
Atualizado em
O roubo de veículos no Brasil não termina quando o carro desaparece. Na região de fronteira com o Paraguai, uma sofisticada rede criminosa mantém um fluxo constante de automóveis furtados e roubados que atravessam a Ponte da Amizade e seguem para diferentes destinos dentro do território paraguaio.
Segundo informações divulgadas pelo jornal paraguaio Vanguardia, quadrilhas especializadas utilizam mulheres e adolescentes para transportar os veículos até o país vizinho, estratégia que busca reduzir suspeitas durante as travessias. Depois de cruzarem a fronteira, os automóveis passam a integrar uma cadeia de receptação, adulteração e revenda.
Parte desses veículos é enviada para o norte do Paraguai, onde acaba sendo utilizada por organizações ligadas ao narcotráfico. Os automóveis servem tanto para a logística das facções quanto para o transporte de drogas em rotas clandestinas que voltam ao território brasileiro.
Outro destino frequente é o desmanche. Veículos são completamente desmontados e suas peças comercializadas ilegalmente no mercado local. Há ainda o chamado processo de clonagem, em que automóveis roubados recebem documentos e características de veículos legalizados para voltar a circular como se fossem regulares.
As investigações também apontam que alguns carros acabam sendo vendidos por valores muito abaixo do mercado para compradores que desconhecem sua origem criminosa.
Suspeita de participação de policiais
Um dos pontos que mais preocupa as autoridades paraguaias é a suspeita de participação de agentes de segurança na estrutura criminosa.
Conforme as informações obtidas pelo Vanguardia, policiais da ativa e aposentados estariam envolvidos na movimentação de veículos roubados, utilizando a própria condição funcional para facilitar o transporte e dificultar fiscalizações.
As denúncias também citam a existência de grupos familiares ligados à corporação policial que atuariam na compra, venda e regularização ilegal dos chamados veículos "cabrito", nome dado aos automóveis com identidade adulterada.
Nos últimos anos, diversos casos envolvendo integrantes das forças de segurança vieram à tona em operações realizadas na região de Ciudad del Este. Entre eles, estão oficiais flagrados transportando caminhonetes suspeitas e até veículos roubados encontrados em propriedades de policiais durante investigações conduzidas por forças de segurança da fronteira.
Caminhonete roubada foi interceptada na Ponte da Amizade
O caso mais recente ocorreu nesta semana, durante uma fiscalização na aduana da Ponte Internacional da Amizade do lado paraguaio.
Equipes da Direção Nacional de Receita Tributária, com apoio da Marinha do Paraguai, abordaram uma caminhonete Toyota Hilux que circulava com placas brasileiras.
Durante a conferência, os agentes constataram que a placa não correspondia ao veículo e que a caminhonete possuía registro de roubo no Brasil. A motorista não apresentou documentos que comprovassem a propriedade do automóvel e acabou detida pelas autoridades paraguaias.
O veículo foi apreendido e encaminhado ao pátio oficial para os procedimentos legais.
Mudança na polícia após sucessivos fracassos
A sucessão de furtos, roubos e o baixo índice de recuperação de veículos provocaram mudanças dentro da Polícia Nacional do Paraguai.
Nesta semana, a estrutura responsável pelo Departamento de Controle de Veículos Motorizados em Alto Paraná foi reformulada após críticas à falta de resultados no combate às quadrilhas especializadas.
A troca no comando ocorreu depois de uma sequência de casos que repercutiram na região, incluindo o furto de um utilitário esportivo dentro do campus da Universidade Nacional do Leste. O veículo acabou sendo recuperado por outra unidade policial, evidenciando falhas na atuação do setor especializado.
Com a reestruturação, uma nova equipe assumiu a missão de intensificar o combate às organizações criminosas que atuam no tráfico de veículos entre Brasil e Paraguai.
As autoridades paraguaias reconhecem que o comércio ilegal de automóveis roubados continua sendo uma das principais modalidades do crime organizado na fronteira e representa um desafio permanente para os órgãos de segurança dos dois países.
Fonte: Portal da Cidade
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